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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Todos bons garotos

Querem ser ricos.
E eu,
hippie



Veja também:
-Toda poesia
-Meu pai é um livro

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Queria uma rima pra silêncio
Como não encontrei
Fiquei com
a
paz


Veja também:
-Canção de Amor
-Tem um Drummond no meio do caminho

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O Evangelho segundo Louis Amstrong - Frico

-Quer aprender a perder o pecado?



E, então, o senhor disse:

Tocai as cornetas até arrebentar seus pulmões
Que o homem saiba que são dele o reino e os portões.
Do alto da montanha o band leader sentiu
Foi o dia em que o sábio Nietzsche sorriu:
"Um Deus que dança! Hosana nas alturas!"
E Coltrane era o sacerdote a empunhar as escrituras
O amor supremo inebriou os cordeiros do senhor
Francisco de Assis rodopiava em louvor
O padre ministrava seguindo a partitura
E Deus era o maestro de toda criatura.
Era o Apocalypse, a grande revelação
Salvaram-se as almas pela força da canção

Frico já escreveu um punhado de poesias nesse blog. Leia o resto aqui e deixe seu comentário aí embaixo.
-Tem um Drummond no meio do caminho

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Hoje é dia D(Meu Canto)

Escrevi essa música em janeiro de 2006, no último dia em Penápolis, antes de me mudar para São Paulo e começar a trabalhar como jornalista. Ela me lembra o Natal.

Hoje não tem choro de criança
Nasceu um raio de esperança
Hoje não vai ter futebol

Dei oi pro vizinho e abri um vinho
Não me sinto mais um estranho no ninho
Quando saio na rua, não estou mais sozinho

Hoje é dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino nascer
É dia de ver, o menino


Moleques pediram manga no meu quintal
Calor de rachar, mas isso é normal
Hoje não tem batida policial

Hoje não tem pais brigando
Não tem crianças chorando
Hoje não há dor em nenhum canto

Hoje é dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino nascer
É dia de ver, o menino


Hoje não tem batucada, hoje não vai chover
Velhos decidiram não vão morrer
Hoje é dia do santo descer

Charles saiu da cadeia
As crianças vão dormir de barriga cheia
As pessoas pararam pra ver a lua cheia

Hoje é dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino nascer
É dia de ver, o menino


Amanhã pagam se as dívidas
Amanhã velam-se os mortos
Amanhã choram-se as perdas
Amanhã vai se outro dia

Hoje é dia de ver o menino nascer
É dia de ver o menino nascer
É dia de ver, o menino


Eu canto minha casa, meu canto
Meu bairro, meu santo
Eu canto: pra você viver

Hoje é dia de ver
Hoje é dia D
Hoje é dia de ver o menino nascer

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Cowboy lírico e o sorvete de creme - Frico

Neste domingo está rolando a parada gay na Avenida Paulista. Segue uma pequena homenagem beat do Clube à diversidade e liberdade de sexualidade.

O cowboy lírico entra no velho boteco
Toca Bob Dylan no iPod do traveco
"Quero conhaque nacional, meu chapa"
O fora da lei escarra seu pedido na lata

"As coisas estão mudando", diz o garçom
Ele é gay e tem um terninho marrom
"Assistiu "Milk" no espaço Unibanco"
É preto mas transa um playboy branco

Ontem eu saí de mãos dadas com meu homem na Paulista
Ninguém me xingou de bicha, isso foi uma conquista
Espero que um dia meu filho não precise fingir
Que pensa em mulher antes de dormir

"Os dias estão bem mais quentes, né?"
O taxista está suando em bicas debaixo do boné.
"É sim, meu truta, o tempo está louco"
"Temos que fazer alguma coisa, gritar até ficar rouco"

Não sei, será tão ruim um pequeno apocalipse?
Os bons se salvarão num eterno eclipse
Os homens morrem mas o universo segue imenso
Os dinossauros foram pro saco e ninguém ficou tenso.

"Me dá um dinheiro senhor, eu também tenho fome"
Eu tenho dinheiro, mas não dei, hoje ele não come
ver muitas vezes a Mona Lisa faz dela uma puta
Ver muitas vezes a miséria tira a fé na nossa luta.

O Cowboy lírico dispara certeira sua poesia
Cria universos vermelhos de uma gostosa anarquia
Liberdade não é bagunça, diz a pichação na minha cidade
Rita Cadillac rebola celulite e idade

"Gosto de mulher assim, saca? De verdade"
"O que é a verdade, meu querido? Homem é diversidade"
"Você gosta de homem, eu gosto de poesia."
"Sua verdade heterossexual me mata de asia. "

Conhaque agradável, fica saboroso com cerveja.
Essa música do Radiohead faz sentido com tristeza.
Não existe uma verdade, mas existe a felicidade?
Filósofo de boteco, vá beber na faculdade.

Vou ensinar os alunos a serem felizes, ensiná-los o gosto
Da chuva? Do corpo banhado em vinho? Das covinhas do seu rosto?
Não, tenho a felicidade sintetizada num wireframe
Se resume a um pote grande com calda e sorvete de creme

Frico deixa de lado a carcaça branca machista quando sonha que "Espero que um dia meu filho não precise fingir". Além do jornalismo que lhe paga o salário, ele escreve poesias, resenhas e bebe

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

RAP - Poesia

-Já ouviu rap de nerd?


Ilustra do Bylla, zineiro de Penápolis

Eu não tinha estudo então fiz um rap.
Para todos os bandos de moleque.
Que como eu andaram descalços
Para os condenados presos no cadafalso.

Pra todo mundo que deveria não ser, mas foi.
Todo um mais um que não é dois
Toda rima pobre que emociona
Toda falta de lirismo que questiona.

Um dia eu também estive na fila esperando.
Um exame, um documento, uma noite sonhando.
Usando aquela roupa maior dada como esmola.
Assistia aos meninos do bairro cheirando cola.

Para todo mundo que deveria estar preso e é poeta.
Todo louco que virou um pouco profeta.
Todo analfabeto que ensina
Todo puta que é menina.

A beleza do mundo é difícil de perceber.
Morrer não é difícil, é bem mais fácil que viver.
A poesia da vida é assim real.
Como esse poema fraco e sem final.

Originalmente postado no blog Clube de Ideias.

-Leia mais poesias
-"Tiros, tretas e vagabundagem"

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Drogas

-Poema originalmente publicado no Clube de Ideias

Já tomei cerveja, pinga e conhaque
Tracei whiskey, vodka e Prozac

Azpraz, marijuana, lança perfume
Bolonha, haxixe e estrume

Novelas, tequila, absinto
Sermões, pornografia e sinto

Ainda sinto a mesma dor que me mantém ligado
Não consigo dormir, não fico parado

Não vou me matar, não vou desistir
Não vou enlouquecer, nem deixar de sorrir.

Sou igual a todos na doença e na glória
Minha única diferença é minha memória.

Não esqueço um segundo as dores do mundo.
Insisto em dar luz a este existir vagabundo

-Outras poesias freakies

Frico atualiza o Punk Brega religiosamente a cada dois dias, além de tentar manter vivos o Clube de Ideias e os blogs de suas bandas. Deixa um comentário aí pra ele continuar fazendo seus rabiscos, nem que seja propaganda de dentista.

-Uma canção para São Paulo
-A poesia beat de Ferlighetti

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Seus cabelos vão ficando brancos - Frico

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Nasci numa época de esperança, ano das Diretas Já, ano do caos de George Orwell
Ditadura militar desmoronava como o muro
que ruiu no ano em que um operário quase virou presidente da República
Não lembro muito do útero, só que gostava muito de lá. Sentia-me protegido
Às vezes queria voltar pro útero, que parecia ser meu verdadeiro lar

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Migrei para o interior, onde rolei na relva verde e me acostumei com o luar estrelado do
sertão
Li meu primeiro livro com 6 anos e não parei nunca
Meu pai lia muito todos aqueles nomes esquisitos como Freud, Nietzsche, Marx e Henry Miller
Não sabia se Eça de Queirós era homem ou mulher. Que pessoa é Eça?

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Meu pai lutava judô e minha mãe pintava quadros psicodélicos
Ela era bonita e nos colocava para desenhar ao som de Pink Floyd
Eu achava Andoniran Baborsa engraçado e ainda acho, eu tinha um cachorro vira-latas e
nosso bairro era um pouco feio
Eu não podia brincar na rua como os vizinhos porque era perigoso. Ser atropelado. Um cigano.
Um tarado.
Meus vizinhos pareciam com os pobres que eu via na televisão

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

O anarquismo vinha depois do comunismo, que vinha depois do socialismo, que vinha
depois da derrota do capitalismo.
Mas os russos entregaram os pontos de vez em 1991. Assisti as Olimpíadas de 1992 sem a URSS
A copa de 1994 é nossa, o Brasil é tetra e eu sou muito perna de pau.
Sempre fui o último a ser escolhido na Educação Física.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Estudei em escola pública dos 5 até os 9 anos
Odiei a escola de freiras onde meus pais davam aula.
Eu era bolsista, ateu e não sabia jogar bola. Era estranho e diferente.
Meus pais eram estranhos e diferentes e ninguém no interior entendia a gente.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Eu passei recreios inteiros sozinho lendo Gulliver
Eu esperava a entrada para aula, sozinho, lendo Graciliano Ramos
Eu me divertia sozinho lendo gibis do X-Men.
E eu só tinha 10 anos.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Mutações em minha carne: estiquei, emagreci, desafinei. Pelos desabrocharam
Tudo antes dos outros.
Uma menina disse que meus olhos eram bonitos. Mas só os olhos.
O irmão da Sabrina Sato disse que eu tinha cara de rato.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Me apaixonei pela primeira vez com 13 anos. De verdade. Pela menina que todo mundo se
apaixonava.
Ela era loira e tinha uma bunda redonda, grande e bonita. A maior da sala.
Eu gostava das bundas. Bastante.
Escrevi poesias pra ela.
Versos de amor não eram meu forte...
Escrevia porque a vida me angustiava e, se fosse feliz, não escrevia mais nada.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Pilhas poeirentas de quadrinhos de super-heróis, RPG e... A INTERNET.
Tinha mulheres com bundas grandes lá e elas gostavam das minhas poesias.
Me apaixonei pelo rock 'n' roll em 1996. Perdidamente.
Criei um fanzine em 1997 com um amigo e meu irmão.
Em 1998, comecei a tocar violão.

****

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico
Minhas calças se rasgaram, os fios de cabelo se espetaram e um brinco se alojou em minha
orelha esquerda.
Eu era punk, como aqueles que eu via na tv. Eu era alguém e tinha um grupo.
As pessoas tinham medo de mim, e eu gostava. Fiz outro furo na orelha e comprei um bracelete.
Toquei em palcos imundos dos subúrbios, em praças e em centros culturais.
Pulei, gritei e tive convulsões públicas para animar platéias de meia dúzia de pessoas.
Tive bandas, zines, programas na rádio e meu primeiro romance. Durou 3 meses.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Aos poucos entendendo as mulheres.
Adeus mãe gigante, grande, acolhedora, tribal, arquetípica, freudiana.

***

Crescer dói. Descobri que morava na periferia. Um amigo me disse.
"FrIco G mora num lugar perigoso".
Tinha pessoas pedalando de volta para casa às 18h, velhos conversando na calçada
Um vizinho era lixeiro, mas depois foi preso. Polícia passa. Boca de fumo do bairro. Mas nunca
prende ninguém.
Conheci garotos que já tinham vivido mais que homens.
Um cara da classe mata alguém. Outro internado em uma rehab. Menino assalta venda
com uma arma.
Pobre demais pra ser branco e claro demais pra ser um negro.
Queria um lar que não fosse mais um útero.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Pais rígidos. Castigo.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Assisti a queda das Torres Gêmeas na escola e as pessoas comemoraram.
Minha tia americana ligou chorando pra minha mãe.
Me arrependi
Senti o grande império WASP ruindo. Como um rato que rói a roupa do rei de Roma.

***
E, pesando 59 kg, eis o primeiro lugar em uma faculdade pública de jornalismo.
Comecei a beber. Comecei a viver.
Aos 18 anos, vida ganhava cores e cheiros.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Voei até os EUA e freqüentei convenções anarquistas e shows de hardcore.
Tive medo de avião. Tive medo de morrer. E tive medo da vida.
Conheci pessoas maravilhosas, que amei como irmãos.
Conheci mulheres maravilhosas, que amei ou não.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Participei.
De protestos, trupes de teatro, bandas de rock, festas, gangues de discussão de filosofia, programas de tv e filmes amadores.
Vivi 40 anos em 4

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Acreditei no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, onde conversei com pessoas de todos os continentes que acreditavam
Que um outro mundo era possível
E eu ainda acredito. Você não?

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Dormi com as mais feias e as mais bonitas. E as pintei lindas.
Tive a mulher que achei que não teria e a perdi.
Chorei muito, mas fui mais feliz do que triste.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Pânico. Mãos formigando, taquicardia. Achei que ia morrer.
Me arrastei por seis meses em direção a vida de adulto.
Cortei o cabelo, arrumei um emprego, entrei no túnel do metrô imergindo em depressão
A cidade de São Paulo era cinza e fedia como merda, como morte, como dor.
No Butantã mendigos alados e ratos dilacerados faziam coro com as putas tristes, os travecos
de peruca
Os vendedores ambulantes, os botecos imundos, os porteiros nordestinos, os malucos de rua,
as crianças ranhentas.
Eu voltara à miséria, comendo um prato de cinco reais com tomate, cebola, arroz, feijão e um frango horrível.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Mas ganhei dinheiro, vendi minhas letras e ideias por um preço razoável
Viajei, então, e pude ver o mar. Foi lindo. Toda aquela imensidão azul. Penetrou em mim.
Lágrimas lubrificaram o âmago.
Achei uma mulher com asas que voou comigo e tive que abandonar as outras por justa causa.
No começo foi difícil, mas aprendi que fidelidade acontece por vontade, não obrigação.
Acalmei meus demônios internos em sessões de terapia, aulas de Yoga e noites com minha
preta

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Expulsei Édipo de Tebas aos bicudos no cu.
Doeu
Aceitei que podia ser feliz e ter um pouco de dinheiro
Mas nunca desisti.
Continuo sendo uma fábrica de sonhos e ilusões.

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Assisti ao Pânico em SP tocado pelos ataques do PCC
Vivi os tempos da Gripe Suína, o medo de uma epidemia, a crise financeira de 2009.
Errei feio, pedi perdão, me senti culpado e chorei
E escrevi, e li, e gozei, e amei, e bebi, e fumei, e dancei, e abracei, e sonhei

Seus cabelos vão ficando brancos, Frico

Sigo a sina

Estou há mais de dez anos tentando escrever poesia
Os cabelos estão ficando brancos, mas as palavras insistem em soar vazias.

Frico escreveu esse punhado de versos ai em cima. Ele andou lendo muito Walt Whitman, Ginsberg e Ferlighetti e por isso fez um poema tão grande. Leia mais trabalhos dele aqui. Ah, ele também tem um blog, o Punk Brega.

domingo, 25 de outubro de 2009

Uma canção para São Paulo

Era um refrão de samba, que virou esse texto longo, composto caminhando pelo meu bairro

-"Tinha um Drummond no meio do caminho"

São Paulo eu queria te abraçar, ai, ai.
Até que enfim a cidade vai enxergar, vai, vai.

São Paulo eu queria te abraçar, ai.
Até que enfim a cidade vai enxergar, vai.

Vai enxergar o mendigo-artista que pinta retratos no Butantã
A menina linda que espera cansada no ponto de ônibus
Garotos palhaços que transformam semáforos em circo

São Paulo das ruas imundas e cheias, Vital Brasil cacofônica.

São Paulo, se tu fosse uma mulher, te levava pra casa e arrumava seus dentes.
São Paulo, se tu fosse uma mulher, te dava banho e escovava teus dentes.


***



Um dia eu vi um rato morto debaixo da ponte Eusébio Matoso.
Decompondo-se dia após dia.

Pele.
Carne
Ossos
Poeira
Nada

Ao lado dos mendigos ratos, que habitavam bueiros. Nada

***

Como Caetano te achei feia, cinza e suja.
Mas te entendi depois, imponência de grandes avenidas paulistas e farias limas.
O lado bonito e oculto da cidade fantasma.
Não que não haja beleza nos jardins do Jardim Ângela e nas formas circulares do Capão.
Redondo.

Algumas coisas acontecem na Avenida São João
Madrugadas boêmias, Ipiranga, Copan. Meu coração.
"De noite rondo a cidade"
Os bares da Vila Madalena, Augusta e Barra Funda.
Espero meu ônibus e vejo o Jaçanã.
Passo o bilhete único e lembro do Adoniran.
***

São Paulo é a mais democrática e a mais elitista megalópole brasileira.
Não pertence aos paulistanos, mas aos nordestinos, caipiras e gaúchos
Africanos que estudam na USP, bolivianos que enchem o Brás, Bexiga e Barra Funda.
Italianos da Mooca em jogos do Juventus e japoneses cantando boleros em karaokês.

***
Metrô ultrarrápido
Jatos utrasônicos
Paulistanos ultrasós

***



São Paulo eu queria te abraçar, ai, ai.
Até que enfim a cidade vai enxergar

Vai

-Outras tentativas poéticas

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Abuelita

Acreditava que minha vózinha
Era um anjo
Gosto de pensar nisso
Porque gente que nem ela: boa
Que ama, cuida e doa
É ruim de ver na vida
Eu acho que voa

Uma homenagem de Frico à Vó Hermínia, retirado de "Menino Uterino e outros poemas da infância"

terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Penápolis" - Frico

Gosto da luz de Penápolis
Quente e intensa
O cinza de São Paulo
Não compensa

sábado, 1 de agosto de 2009

Poesia Punk - Frico

- Te gustas el punk rock?

Arrotada na sarjeta pelo velho punk que parece um hippie
A poesia punk é popular e undeground, feita com pressa como uma trepada mal feita
Escrita com os culhões como um livro do Bukowski
Com o improviso do cinema do terceiro mundo
Afiada como as unhas compridas do Zé do Caixão
Afinada como a guitarra distorcida dos Ratos de Porão
A poesia punk, coitada, é xerocada e vendida nos semáforos por moedas
É recitada em imundos saraus regados a vinho e marijuana
É implorada por putas tristes e carentes de carinho e lirismo
A poesia punk é preto e branca como as páginas de um zine xerocado
É barata como uma dose ácida de rabo de galo
Sangrenta como um filme de terror barato
E recheada de furos como a sola do meu sapato


-Contos por mim cuspidos com carinho
-Documentário conta a história do punk nacional nos anos 90
-Entrevista com os Garotos Podres

domingo, 26 de julho de 2009

Leve ser me leve - Frico Di Giacomo

-Tem um Drummond no meio do caminho
Já andei muito de luto e preto
Das dores fiz um soneto

Da morte já fui conhecido e parceiro
Achei que ia morrer só e solteiro

A culpa deixava minhas costas pesadas
Fantasmas apareciam com caras assustadas

Eu sempre precisava ser o melhor
O caminho da dor eu sabia de cor

Agora não quero carregar cruz
Eliminar da ferida o pus

Poder caminhar sem dever nada ao mundo.
Acabar com a angústia lá no fundo

Ter a alegria das coisas simples da vida
Deixar que a destruição seja minha sina

Ser leve
Ser leve
Ser leve Ser
leve Ser leve
Ser leve Ser leve Ser leve

Ser leve como a neve
-Leia outras poesias
Frico despistou a síndrome do pânico e o stress acreditando no poder terapêutico da cerveja gelada, mantra de sua namorada

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Para perder o pecado - Poesia

-Deus falou pra mim

Para perder o pecado
Eu preciso escrever um poema
Sem anjos alados ou tortos
Sem Cristo
Sem Virgem
Sem dogmas
Sem necessidade de redenção
Sem tentativa de oração
Sem perdão
Sem 2000 anos de cultura

De símbolos sacros
De lamentações
De martírios santos
De fraternidade e culpa

Para me livrar de vez do pecado
Preciso esquecer dos demônios
As tentações
As putas apedrejadas

Esquecer de vez de tudo isso para
Finalmente chegar perto de Deus

Escrevi essa poesia no ônibus para Penápolis no sábado do feriado de 21 de abril, após ler alguns poemas do livro "Um parque de diversões da cabeça".

Não há nada que nos afaste mais de Deus que as religiões dos homens

-Mais poesias de onde veio essa

domingo, 4 de janeiro de 2009

Minhas musas são pé sujo - Conto

-Tava procurando mulher pelada? Clica aqui, então

Pra quem convive comigo isso não é novidade nenhuma, todos sabem que eu tenho uma quedinha por minas hippies. Hippies, punks, junkies, garotas problemas e suicidas. Tenho fascínio por pessoas que não dão valor a vida. Ta ai um mistério que não consigo solucionar, mas dane-se, isso é outra história.
***
Eu estava no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, capital mundial das “pé-sujo” e fazia um solão da porra. Tava com diarréia, desidratação e gengivite. Ia ao banheiro de cinco em cinco minutos, minha boca mais seca que múmia egípcia e a água da cidade contaminada... Os ambulantes mercenários vendiam garrafinhas d’água por R$1,50 e cerveja ruim por R$ 2,00 reais a lata. Um roubo! Tudo em nome do “anti-corporativismo”, hipócritas! Para não beber cerveja de uma grande empresa eu era super-explorado por uma fabriqueta gaúcha de mijo e por aqueles vendedores estelionatários. Tinha pouca grana no bolso e isso me impedia de beber tanto quanto eu queria. Uma coisa que me irrita é passar sede, pior que fome! Resolvi só tomar pinga, o que não me ajudava muito. Acordava às nove horas da manhã com um sol desgraçado me dando bom dia. Eu dizia “Bom dia seu grande filho da puta, obrigado por queimar meu cérebro, ter um câncer de pele, vai facilitar muito minha velhice”. A temperatura dentro das barracas de plástico, nas quais estávamos acampados era insuportável. Me sentia um sem-terra, um guerrilheiro, um desabrigado por desgraça natural como o Tsunami. Isso vinha bem a calhar com a temática esquerdista do Fórum. Talvez tudo que eles quisessem era nos proporcionar um workshop de como é a vida das classes exploradas. Ta certo, meus queridos, eu cresci numa quebrada de verdade e na minha rua tinha uma boca de fumo, vão dar palestra de realidade para os gringos que tão a fim de fazer um turismo barato aqui no PATROPI!
Porra! Meu intestino tava avisando: lá vem merda, garotão! Saí correndo como um louco até o banheiro mais próximo. Eu tinha três opções reais: os banheiros do parque municipal onde estávamos acampados, onde ficavam chuveiros, mictórios e privadas, e que se encontrava num estado miserável. Os banheiros químicos, que eram cabines de plástico, com uma espécie de privadinha, na qual não se encontrava descarga, a merda ficava ali olhando pra gente e boiando, à vontade. A última opção era o shopping center que ficava uns 15 minutos de caminhada, o que não estava nas minhas possibilidades. Ou então eu podia cagar ali no meio do chão, o que não causaria espanto a incrível aglomeração de hippies e anarco-punks sujos, que se juntava no local. Decidi usar o banheiro químico: forrei a parte da frente para não raspar o pinto na imundice e morri por cinco minutos. Minha alma saiu do corpo. Voltei a mim, me juntei aos caras.
Estávamos cobrindo o Fórum para um coletivo de comunicação. Éramos todos jovens recém formados na infame “comunicação social”: relações públicas, rádio e tevê e jornalismo. Ninguém tinha conseguido um emprego de verdade em uma grande rádio ou jornal impresso e então unimos nossas forçar em nome da justiça social e resolvemos fazer as coisas com as próprias mãos. Tinha uma porrada de minas lindas, com sandalinhas de couro, saias indianas e colares artesanais, mas eu não podia perder meu tempo com elas, já que nossa querida “líder”, Marina, era uma workaholic do inferno e não nos permitia fazer outra coisa a não ser filmar, filmar e filmar.
O lance era o seguinte: estávamos fazendo um documentário sobre ativismo social em parceria com uma ONG gringa e se tudo desse certo poderíamos conseguir uma verbinha para nosso coletivo. Todo mundo tava sem grana e vivendo à custa dos pais, que não queriam mais bancar ninguém. Tava todo mundo sem um puto nem pra cerveja e economizando até nas refeições. O cara que tava na pior situação era o Hebert, mulato, formado em rádio e tv, vindo da periferia de São Paulo que tinha conseguido se formar graças à “bolsas-esmola” do estado. O nego tinha talento nato pro teatro, mas tava numa pindaíba que dava dó agora que a verba tinha sido cortada. Se ele não arrumasse um trampo logo, ia acabar tendo que voltar para casa e fazer serviço de peão. Eu não tava tão ferrado, mas minha mãe tava me pressionando feito louca. Tinha sido despedido de uma editora astrológica, onde conseguira estágio no último ano de faculdade. O lance dessa editora era horóscopo e revista pro público feminino. Revista barata mesmo, pras classes C e D, exploração da ignorância alheia. Sacaneavam as meninas pobres que dava dó. E a gente copiava tudo da internet, não tinha que fazer nada: só copiar e colar. E aquelas garotas punham a vida ali:
“Cara Revista Melhor Amiga, engravidei e o pai da criança fugiu. Me deixou sozinha, se meus pais descobrirem me expulsam de casa. Já decidi fazer aborto, não tenho outra saída. Será que vocês poderiam me ensinar o melhor método? Já descobri algumas coisas: Chá de Erva X, enfiar um arame na vagina, tomar remédio Y(que pode matar a mãe por sinal) ou até bater na barriga. Tenho medo que possa acontecer alguma coisa comigo... O que eu faço?”
Fuja menina! Fuja que você não merece esse mundo. Um covarde bastardo que te engravidou e fugiu, pais otários que não tem diálogo com os filhos, miséria desumana que impede as pessoas de terem acesso à informação de verdade, solidão angustiante que transforma uma revista em “Melhor Amiga”. Todo mundo leu essa carta lá na redação, alguns até riram, eu queria responder, nem que fosse para falar pra ela não fazer o aborto. Mas a editora vetou: o maldito guru esotérico e dono da revista não permitia referências a aborto, drogas ou temas polêmicos nas suas revistas. Diabos! A menina ia cometer suicídio e ninguém podia falar nada? Que mundo era aquele? Recortando e colando dicas de beleza e reescrevendo milhares de vezes a mesma matéria sobre a primeira vez de uma garota sob títulos diferentes... ACORDEM! Alguém ai sabe como é a primeira vez de uma garota pobre nesse inferno chamado Brasil? Quantas garotas vão comprar velas vermelhas, lingerie nova e uma jantar especial para o namorado que amam e quantas vão estar deitadas em uma construção, trepando sem camisinha com um babaca, que insistiu a noite inteira, e quem sabe se aproveitou do seu estado etílico. Pura merda! Depois disso não demorou muito pra eu cair fora...
Por isso tudo eu estava lá em Porto Alegre gastando meu inglês tosco e o portunhol para falar com todos aqueles ativistas malucos e montar um documentário decente e sem garotas fazendo abortos com remédios tarja preta. No final das contas a gente nunca faz o que quer quando ta ganhando. Ou melhor, nunca pagam pra gente fazer o que gosta. Sua vida é uma encruzilhada em que de um lado está a realização pessoal e a pobreza e no outro a grana e a infelicidade. Eu por enquanto tava nessas de sobreviver comendo pão com mortadela à noite e bebendo Caninha 51. Não sabia até quando ia agüentar. Todos meus heróis morreram antes de ficar velhos ou se venderam... È triste pensar assim, né? Às vezes pensar dói mais que tomar um socão na cara... E olha que eu só tomei um soco na cara uma vez. Bom, estávamos lá: eu, a Marina, o Cagote com a sua namorada nipônica, o Hebert e o Mangabeira, que era um puta alcoólatra, pior que eu. O Cagote e a namorada tavam cagando mais que todo mundo junto, o cara ficava jogado no chão, perto das barracas, em cima duma lona quente, tomando soro caseiro e se lamentando:
_ Mano, deixa eu fazer um desabafo... Não faz sentido eu estar aqui, se eu tivesse bem, vai lá, mas eu to mijando pelo c*! Aqui não tem lugar pra cagar, é quente pra diabo, não tem água, onde é que eu vim parar?
_Relaxa, Cagote, a gente vai terminar essa porra rápido e ai a gente volta pra casa. Lá vai ter uma privada enorme e limpa onde você vai poder passar o dia todo evacuando relaxado. O papel-higiênico vai ser de primeira e não essa lixa que os caras põem nos banheiros públicos...
_ E a cor, mermão(meu irmão ele queria dizer)? Vai ser azulejo branco? Banheiro bom é branquinho... Pedindo pra você: "Senta. Senta e faz..."
_ Branquinho, mano, branquinho e sem tábua cagada. Você não vai mais ter que ficar forrando a privada toda vez que for sentar.
Agora a gente tava andando, fazendo uma tomada geral do Fórum. Duzentas mil pessoas, de todos continentes do mundo, dezenas de línguas, centenas de roupas, milhares de sonhos. Barracas de artesanato hippies, anarco-punks com moicanos, sem-terra com bandeiras, partidos de esquerda com panfletos. Musas com pezinhos sujos de areia, gringos vermelhos de sol. Utopias cagadas todos os dias em banheiros imundos, cortesia da excelente água gaúcha. Um hippie sujo e com dreadlocks encanou com a nossa filmagem:
_Hei, vocês não tem autorização da minha pessoa pra me filmarem.
O Mangabeira.
_Calma, cara, a gente só ta filmando o caminho.
O Cara tava louco não ouvia, devia ter fumado tanta maconha, misturada com chá de cogumelos e LSD que o cérebro tinha virado geléia.
_Ai, meu irmão, vocês vão vender essa fita ai e os caras vão copiar meu trabalho. Isso aqui é tudo idéia da minha cabeça, meus artesanatos. Minha pessoa é um artista. Não da pra ficar filmando meus trampos assim
Montuado de estátua de barro feitas por algum cara com deficiência motora, colares iguaizinhos ao de todo “hippie artista” que se encontra no mundo. Dava vontade de chutar tudo, pisar naquelas bostas e mandar o cara tomar banho. Pra não mandar tomar outra coisa...
_ Cara, na boa, a gente ta fazendo um documentário nem filmamos você.
_ Se liga meu irmão, vou chamar meus camaradas, se vocês não apagarem isso... Ta maluco, minha pessoa é esperta, ta sabendo? O negócio vai engrossar.
_Pronto a gente já apagou e tamo indo embora_ o Hebert queria encurtar a conversa.
- Cês, acha que eu não sei o que cês faz? Vão pegar esse vídeo recortar minha cabeça e me colocar peladão na internet, fazendo assim ó(simula sexo)! Que nem filme pornô...
Nessa hora a gente mal tava ouvindo o ogro, mas eu ainda sentia seu bafo fedorento na cara...
_Filho da puta – Falei.
_Mermão, só to cagando, to precisando ir no banheiro de novo, porra! Já caguei em Porto Alegre inteiro, no posto, no shopping, no restaurante, caraca!
_ Porra, Cagote! Você ta foda hein? Só fuma maconha e caga! Caga na barraca, no chão, na sua namorada...
_ Ta maluco mermão, na minha namorada não!
Senti uma pontada. Saímos correndo e chegamos a tempo no shopping... Lá o banheiro era limpinho...
***
Meu amor platônico pelas pé sujos devia ser edipiano... Minha mãe era meio hippie quando casou com meu pai... Na prática não tenho muita frescura com mulher, mas sempre me apaixono por uma gatinha alternativa. E quase nunca ajo. Fico só olhando, pensando, imaginando... Isso me rende um monte de história pra escrever... Só que troco todos contos, o prêmio Pulitzer ou o Jabuti, por uma menina com cérebro, sandalinha de couro, blusinha de alcinha e saia indiana. E uma boa bunda, porque ninguém é de ferro, né?
23/02/05.




Este conto tem alguns trechos inspirados na minha experiência real no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, 2005. Na foto, eu, meu irmão Gabriel e Rodrigo "Pantera".

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sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Bebendo com o Pantera - Conto

Me desculpem as pessoas que acham que post em blog tem que ser curto e direto, mas ultimamente só ando postando textículos e vídeos, então vou tomar a liberdade de colocar aqui esse konto da safra 2007, escrito depois de uma visita de Rodrigo Pantera e Bernardo Santana(ex-membros da saudosa banda punk brega Cuecas Rosas). Quem tiver saco pra ler até o fim será eternamente abençoado por dEUS!
***

Bebendo com o Pantera.
Há tempos não bebia assim, cerveja até a cabeça girar, sem passar mal, como homem mesmo. Sem depressão, nem som alto, sem aquecer para trepar. Só eu e um camarada rodando os botecos da Augusta atrás da cerveja mais barata de São Paulo. Tinha começado depois do show do Mudhoney, num boteco do Butantã: 3,40 a Skol e a Brahma. Bebemos pouco, só até o Lúcio sair passando mal e o Titi quase dormir na cadeira. No sábado toquei com o Bernardo à tarde inteira e à noite fomos pra um boteco da Augusta. R$ 3,50 a garrafa. Chorava de rir com cada besteira que o Pantera dizia. O Bernardo pediu um “x-tudo” com calabresa, ovo, queijo, hamburguer e outras milongas mais. Parecia bom. Pedi um pra mim, deu meia hora e a barriga se revoltou, travei o cu, mas o gás quente saiu. Corri pro banheiro do boteco: ocupado. Três quarteirões até minha casa, correndo sem abrir muito as nádegas. Passei pelas putas que ocupavam a escada de casa. Abri a tranca quebrada de primeira, passei correndo pelos designers que moram comigo: Gabriel e Lacaz.
_Ta com pressa, hein, Ernesto?
Barro na louça. Destruo o banheiro. Alivio imediato. De volta pro bar e do bar para um aniversário num fliperama da Augusta. O Pantera parece uma criança, ganhando de todo mundo no Street Fighter. Muita gente: jornalistas, designers, fotógrafos. Modernos, em sua maioria brancos, bêbados, felizes naquele pequeno orgasmo eletrônico. Muitas mulheres. Minha namorada está no sul. Bêbada. Saiu de um “open house” no apê da amiga pra uma balada às 3:30 da manhã. Chegou em casa às 6 horas. Minha namorada está no sul, mas as amigas estão aqui. Todos meus amigos estão namorando, até mesmo o Renato que mal se comunicava pelo msn e faz pose de durão. A mina dele canta e criou um personagem de quadrinhos. Par perfeito. 2:30h, convoco Bernardo e Pantera pra sair fora. A festa já deu no saco. Tem no mínimo quatro minas que eu já peguei, mas to sossegado. Saudades da “patroa”.
Vamos até um lugar que serve pedaços de pizza e eu me perco no meu bairro. A Sweet Smell me liga carente, o namorado saiu fora e a deixou na mão de novo. Encontra a gente, me abraça. “Ok, baby, nosso tempo já passou”. Ela vai embora. Converso com os dois sobre desejo e fidelidade. O Pantera estuda sociais, mas só tira sarro de mim, ele acha que quero uma desculpa pra trair. Não preciso de desculpa, mas não é esse meu objetivo. Quero entender até onde somos animais. Vamos pra casa e uma voz grita meu nome na rua: Sweet Smell e sua amiga. Eu abro a janela
_Que música você quer que a gente cante?
_ ?
_Vou cantar uma do Roberto pra você: “Detalhes tão pequenos de nós dois...” É a amiga da Sweet, ela já ficou com o Gabriel.
_?
_Tem comida ai?
_Pão de forma, mas não é meu...
_Pão de forma, Ernesto? Que pobreza!
_Cantem pro Gabriel, vou lá chamar ele.
Vou até o quarto do Gabriel e abro a sua janela. O cara ta mal, amidalite fodida e fazendo frila até de madrugada. Ta desperdiçando o talento, deixando sua arte perdida no tempo. O cara é foda, mas pega muito trabalho pra fazer.
_Vamos na Funhouse, Ernesto?
_To de boa, meninas.
_Olha, Ernesto, seu porteiro ta xingando a gente....
_Ernesto, eu to aqui me humilhando porque você é meu grande amigo, você sabe que eu te amo, né?
Vão embora, o Daniel Galera estava lá junto. O cara escreve bem, queria mostrar meus contos pra ele... Vou ver se a Sweet Smell me arruma o telefone dele.
***
O ensaio nesse domingo foi zicado. O Titi chegou meia hora atrasado porque estava com uma mina. A baqueta da Ana voou 2 vezes durante o ensaio, cordas estouraram, foi bom pra gente ficar humilde. Vamos precisar de um bom tempo de ensaio pra poder tocar ao vivo. Volto pra casa. Pantera me liga para ir num bar, minha ex vai estar lá.
Chego no bar. Skol: três e alguma coisa. Bebo uma. Chega minha ex, um amigo e uma amiga. Não cabe todo mundo sentado. Vamos pra outro. Skol: 3 reais. Esse é o meu templo! A breja mais barata da Augusta, do lado de casa. Discuto com o cara:
_Por que sempre acontece tumulto no show dos Racionais?
_A polícia começou a bater.
_Tinhas uns caras em cima da banca, eles pularam nos apartamentos depois.
_Os apartamentos estavam vazios e isso rolou durante o show da Nação, não no show dos Racionais.
_Cara, dava pra ver que ia dar merda. Eu fui embora bem antes por causa disso.
_Você acha que a polícia está certa?
_Não vou defender a polícia... Mas os caras não precisavam atrasar uma hora e meia o show.
_Eles deram espaço para uns artistas novos se apresentarem. Tava escrito na programação: Racionais e convidados.
_Sei lá, às 3 da manhã, ninguém queria ver os convidados... E o discurso do Brown não ajudou...
_Agora você vai culpar o discurso dos caras? Os Racionais retratam a realidade, mas pregam a paz...
_O Thaíde e o Rappin Hood criticaram a postura do Brown. Essa pancadaria no centro queimou o filme do hip-hop.
_Desculpa, Ernesto, mas não concordo com você... Meninas vamos embora?

Fiquei me sentindo mal. Um branquelo classe média, falando mal de Racionais para um negro da Zona Leste. Cor e classe social não deviam importar nessas horas, mas me senti afinado com o discurso do “medo branco”. Será que estou virando bundão? Virando casaca? O duro é abaixar a cabeça para os discursos sem questionar nada. Tanto de um lado quanto de outro. Não consigo concordar que sempre a esquerda vai estar certa. Parece que tem alguns ícones que você não pode criticar. Fiquei meio bolado e eles foram embora. Chegou uma outra amiga minha, mulata, mas não fã de Racionais. Tomamos mais duas: eu, ela e o Pantera. A galera tava indo embora e o bar estava fechando. Fomos pro bar do “x-diarréia”. Uma breja e um conhaque. Acabou a cerveja de garrafa. Eu e o Pantera fomos pro bar da frente. Skol:.3,70. Pedi duas fichas de uma vez.
_Velho, você não quer fazer teatro?
_Tenho que conciliar com o trabalho, né, Panters?
_Pois, é. Se essa bolsa de mestrado não sair vou ter que arrumar um trampo. Vê se me arruma uns frilas ai...
_To fazendo sua fita lá na editora. Mas acho que a gente vai acabar largando o jornalismo. A gente é bom mesmo em ser palhaço.
_O foda é que a gente escolheu jornalismo achando que ia conseguir se manter, ter um emprego estável, mas se é pra viver mais ou menos prefiro ser artista.
Uma mulher interrompe nossa conversa:
_Boa noite, vão querer uns cigarros naturais? _ Era uma tia de 48 anos. Branca, gorrinho enfiado nos cabelos castanhos, cachecol, agasalho, sacolas.
_Só curto o cigarrinho do diabo...
_Não existe cigarrinho do diabo, isso aqui é cigarro do bem.
_Mas quem disse que o diabo é mal? Quem inventou isso? Lúcifer era um anjo...
_Olha só, chega de papo furado que isso não enche a barriga de ninguém. Tenho que juntar 30 conto pra pagar o hotel que eu e meu filho moramos. Tenho o cigarro que você quer, é metade haxixe.
_Quanto?
_Dez.
_Dez? Ta louca?
_Meu fumo é de primeira, vendo pro Otto, Zezé Di Camargo, vários cineastas. Você não vai se arrepender.
_Pô, nunca paguei tão caro num baseado...
_Esse aqui não é um baseado normal, quer ver? Fuma essa ponta.
Já estava bem torto. Cervejas e cervejas, conhaque. Nem lembrei que estava no meio do bar. Ela acendeu uns incensos e depois o beck. Bateu forte. Demos os dez mangos. Falamos que ela ainda ia ouvir falar da gente:
_Punk brega, a música popular undeground.
Sai correndo com o copo de breja na mão. Frio desgraçado, quase congelando. Entramos em casa: o Gabriel fazia um frila. Chamamos o cara, acendemos o baseado. Nunca tinha fumado nada tão bom. A melhor brisa da minha vida. Chapei, coloquei as meias na orelha e viajei. Comemos dois potes de sorvete, macarrão com calabresa e pizza. 4:30h da manhã de um domingo. Tinha que acordar 9:30h pra trabalhar. E segunda feira tinha mais uma rodada de pinga e cerveja com a banda. Mas ai foi só Skol por 3 reais.

07/06/07

-Pantera também foi comigo pro Fórum Social Mundial em 2005.