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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Free Jazz com palavras - Jademir Rocha + Frico

Sim, quinta-feira é a ditadura da arte. Quem não gostar será fuzilado por um pelotão de aquarelas!

Jademir Rocha ganha a vida cuidando de dentes e obturações, mas gosta mesmo - há anos - de pintar e tocar seu sax. Entre desenhos de jazz com grafite, aquarelas e pequenos artesanatos, ele vive em São Paulo em busca de novos discos para sua coleção.

Inspirado pela série de desenhos de jazz de Jademir, Frico pediu alguns para ilustrar seu livro ainda imaginário chamado "Bebop Beat", composto de poemas feitos no calor do momento, seguindo seu fluxo de consciência ao som de Miles Davis e John Coltrane. O primeiro resultado da parceria está aí:


Free Jazz com palavras
Segura só esse solo, sussurrou Ulysses
E se pôs a tocar uma odisséia sonora
Minha mãezinha do céu, Homero é um maestro com as palavras!
Elas voam na estratosfera azul do Harlem, enquanto Têlemaco repete o riff
E Penélope costura notas num bordado de arpejos e beijos
O Cíclope pede um trago a detona o contrabaixo
Eu escuto João Donato, e Posídon é a pedra no meu sapato
Gosto das palavras assim, free jazz e meu fluxo de consciência


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Acknowledgment - John Coltrane, 1965

Sexta-feira é dia de vídeo aqui no Punk Brega.

Versão ao vivo raríssima da primeira faixa do clássico do jazz "A Love Supreme"



Pra quem quiser ouvir a música inteira:


Gostou? Veja também:
-Resenha de "A Love Supreme" e + 5 clássicos do jazz
-O Evangelho Segundo Louis Amstrong

domingo, 28 de março de 2010

O cântico dos bantos

Billie Holiday


Sax sacana serpenteia sedutoramente simples seus sons singulares
Retumbam repiques retos rasgando repentinamente rotinas
Lábios negros fazem amor com música azul
Sensuais são os timbres que movem minha carne
Cordéis invisíveis nos põe para dançar

"Que foi, querida? Não gosta do ritmo"?
"Estranho, parecem lamentações."
"Como?"
"Pare a música! São lamúrias de dor vindas dos campos de algodão. São gritos de morte!"
"Bobinha, são canções de redenção..."

Um coro veste de branco o ébano.
Sagrada fumaça, chapéus, expressão máxima da cultura estadunidense

Tudo concentrado num arquivo de alguns mega.
Baixado ontem numa noite sem trégua.

Frico já escreveu um punhado de poesias nesse blog. Leia o resto aqui e deixe seu comentário aí embaixo.

John Coltrane


Leia também:
-O Evangelho segundo Louis Amstrong
-Ulysses fugiu da Grécia atrás das garotas negras do Coltrane
-6 discos para começar a ouvir jazz

sexta-feira, 26 de março de 2010

6 discos para começar a ouvir jazz

Essa lista não pretende ser um top 6 melhores discos de jazz.

Eu não sou "entendido" em jazz.

Fui um adolescente punk e ,em geral, gosto de música redonda, feliz e cantarolável. Na verdade, quando era moleque eu odiava jazz. Era o som que meu pai colocava de manhã quando acordávamos para ir à escola. Eram os discos que ele deixava sempre rodando no carro. Não tinham distorção, refrões e muitas vezes nem vocal.

Mas quando vim pra São Paulo, o amigo Gabriel Gianordoli me apresentou alguns clássicos do jazz que me fizeram gostar da coisa. "Love Supreme", "Kind of Blue", "Time Out" e "She was to good to me" entram nessa conta. "Porgy and Bess" é um disco cantarolável e reúne dois gigantes que quem quer começar a se aventurar no estilo deve conhecer. Bom, era pra ser um top 5, mas resolvi incluir o primeiro solo do Jaco aqui. Deste eu gostei quando ainda era "roqueiro". O cara é pro baixo o que o Hendrix é pra guitarra, então pode agradar quem tem resistência a pianos e raízes blues.

Espero que ajude quem quer conhecer este estilo considerado "chato" e "difícil". Você também pode usar os nomes de discos para parecer cool numa conversa. You choose.


"A Love Supreme" - John Coltrane(1965)


"A Love Supreme" conseguiu ser o único disco de jazz a se tornar meu álbum favorito por um certo tempo. A viagem espiritual do saxofonista Coltrane com seu quarteto genial se resume a 4 faixas: "Acknowledgement"(com uma linha de baixo hipnótica e o coro repetindo "a love supreme" no final), "Resolution", "Pursuance" e "Psalm", essa última uma versão musicada de uma oração registrada por Coltrane no encarte do álbum. Acho que é o som mais espiritual que fizeram, desde a invenção do mantra "om".

"Kind Of Blue" - Miles Davis(1959)
Miles Davis é o maior adversário de Louis Amstrong na briga pelo trono de rei do jazz. O trompetista passeou por diversos estilos, lançou meia dúzia de discos essenciais e se tornou unanimidade com "Kind of Blue", álbum que tem até um livro inteiro dedicado só pra ele. Disco de platina quádrupla, sempre liderando listas de melhores do jazz, a bolacha ficou em 12º lugar na lista pop de "500 melhores álbuns da história" da revista Rolling Stone . A influência da bolachinha modal escapa dos terrenos do jazz e se espalha por rock e música clássica.



"She Was To Good To Me" - Chet Baker(1974)

Um trompete tocando a nota certa a cada segundo, compondo melodias assobiáveis mesmo nos improvisos. Algumas canções orquestradas, algumas cantadas numa voz bossanovista. Um dos caras mais cool do jazz no comando do som. Ouça só o começo com "Autumn Leaves" e "She Was to Good to Me" e tente não se apaixonar.

"Time Out" - The Dave Brubeck Quartet(1959)
Um dos álbums de jazz mais vendidos da história, "Times Out" quebra o ritmo do jazz brincando com ritmos turcos, valsas e swing. Bruebeck era da turma do jazz branco da costa oeste - assim como Chet Baker - e sua composições eram mais aceitas que o bebop ácido da costa leste. "Take Five"(que era pra ser só um solo de bateria de Joe Morello) entrou nas paradas da Billboard e é citado como influência até de bandas de rock como "Os Mutantes".

"Porgy and Bess"
- Louis Amstrong e Ella Fitzgerald(1957)
"Porgy and Bess" é a versão jazz mais famosa da ópera de Geroge Gershwin e reúne dois dos maiores nomes do estilo: o carismático e genial Louis Amstrong e a diva Ella Fitzgerald. É um bom começo para quem não tem saco para som instrumental e ainda incluí o clássico "Summertime".

"Jaco Pastorius" - Jaco Pastorius(1976)
Mesmo que não consiga a unanimidade de outros figurões dessa listinha, o primeiro disco solo de Jaco Pastorius é bem popular entre os fãs de jazz e seu som costuma agradar quem está mais acostumado com rock 'n' roll. Contando com Herbie Hancock nos teclados e Wayne Shorter no sax soprano, as 9 faixas incluem sons mais funks, uma faixa com vocais e a genialidade que levaria Jaco ao posto de maior baixista da história.

Se ainda assim você achar jazz um saco, se liga nos nossos posts de punk rock

Veja também:
-O evangelho segundo Louis Amstrong
-Lista com documentários legais sobre rock 'n' roll
-Ilustração de Charles Mingus por denisdme

quarta-feira, 9 de julho de 2008

JAZZ: ao som de Count Basie.

“Sangue fresco tinha gosto de Bourbon”. Gostava de lamber o sangue depois de matar. Fazia-o lembrar de suas raízes animais. Depois podia voltar a ser o “homem-bom”. Depois podia voltar a ser Humano. Irritava-o fingir no imenso teatro de mentiras que é a vida. Na peça da sua existência representava um cirurgião dentista. Queria ser médico, mas o vestibular era muito difícil. Queria ser médico, gostava de sangue. Isso via-se logo de cara. Lambuzava-se. Deixou vinte cinco reais no quarto, beijou a boca da puta e foi embora.

As ruas de São Paulo eram imundas cheias de gente feia. Pessoas com cara de coco, pareciam montes de merda ambulante. Pelo menos estavam em paz com os animais internos. Corja de assassinos e ladrões arrastando-se pelas sarjetas. Queria estar em Porto Alegre... Um loira fenomenal do outro lado da rua. Cara de safada. Óculos escuros, batom vermelho, salto alto. Vestidinho sacana demarcando a bunda. Pernas fabulosos e seios vulcânicos. Silicone. Brasileiras não tem peitos daqueles. Talvez seja gringa. Não, as gringas não têm uma bunda daquelas. Meu Deus! E como rebolava!
Odiava silicone, tinha gosto de plástico. Gostava de rasgar a carne na boca e sentir as hemácias explodindo com o contato dos dentes na boca. Era um sádico, tinha vontade de estuprar a loiraça ali mesmo, no meio da rua. Encosta-la na parede, rasgar sua calcinha e curra-la no meio da multidão com cara de coco. Essa idéia passava pela cabeça de metade daqueles “homens bons”. A maioria deles estupraria uma dona daquelas se a sociedade não os jogasse atrás das grades por isso. A maioria rezava para que acontecesse uma guerra ou o fim do mundo para estuprar as mulheres que nunca iam comer.

Nosso amigo: baixo, magro, brasileiro de nascença, óculos quadrados, aros negros. Nosso amigo: ser humano do sexo masculino, cirurgião dentista. Nosso amigo: RG 43 466 247-9. Nosso amigo era um cidadão respeitável. Sua mulher chamava-o de “chuchu”. Sua filha dizia que ele era o “melhor pai do mundo”. A empregada dizia que ele era justo e respeitador. Mulata sacana! Transava com todos aqueles negros, pobres e nordestinos, tinha uma porção de filhos a parideira, uma bunda gigante e ele ali segurando os testículos para não enfiar-lhe por trás quando estivesse abrindo o forno ou esfregando o chão de quatro. Suava. Teve uma ereção. A loira entrou num cabeleireiro chique. “A LOIRA” entrou num cabeleireiro chique. AQUELA LOIRA FENOMENAL, OBRA PRIMA DE DEUS, entrou num cabeleireiro chique. Devia ser ricaça, a vagabunda! Uma loira daquela casava com quem ela quisesse. Não precisava trabalhar nem se prostituir várias vezes. Bastava vender a alma para um velho brocha. E rico!

O nosso amigo tinha problemas de ereção. Com a mulher não conseguia nada há um ano, suspeitava que ela tivesse um amante. O eletricista ou o velho amigo de nosso amigo, Marcos. Não importava! Alguém estava comendo a Márcia e não era ele. Com as outras gozava rápido demais, tinha fimose. Queria ficar mais tempo para elas não irem embora tão rápido. Queria transar gostoso, pra depois ganhar um abraço carinhoso e poder dormir de conchinha. Mas elas nunca gozavam, fingidas, mulher que não goza fica mal humorada e arruma um amante. Eram as leis da vida. Por isso queria estar em Porto Alegre, tinha estado lá apenas uma vez, mas lhe parecia um bom lugar. Agradável. Gostava de imaginá-la como Pasárgada. Sem negros com paus enormes comendo suas mulheres, só um negrinho que tocava piano e cantava jazz. Lá num barzinho gaúcho. Montes de bichas moderninhas, artistas intelectuais e ele, o último dos homens comuns. Homo Sapien Sapiens heterossexual, espécie em extinção. Tomando Black Label pela primeira vez após trinta anos de trabalho fixo e carteira assinada. O negrinho até que tocava bem: Count Basie, Benny Goodman. Um baixista o acompanhava, tocaram uma do Mingus. Charles Mingus seu moleque ignorante! O rei do contrabaixo! Aqueles moleques e veados não conheciam nada. Ouviam as notas para parecerem bem cools, mas não viam a hora daquilo acabar pra correrem pra casa e ouvirem um pouco de rock n’ roll. Ou RAP! Ou algum ritmo novo e sem alma. Ou qualquer merda que esses jovens enfiavam em nossos ouvidos achando que era arte. A arte morreu com o último romântico. Hoje só existia barulho e velhos broxas, lentos demais para seu tempo.

Pegou um ônibus, depois o metrô. Nem os dentistas ganhavam bem naqueles tempos de crise nas infinitas terras. Aliás, alguns ganhavam, mas ele não, era o clássico exemplo de classe média em queda livre, que já tinha descido pra classe média baixa e continuava despencando. No ônibus tinha um cara enconchando uma morena de bunda enorme. Não parava de se esfregar na mulher, aproveitando-se da superlotação, do balanço do “busão” e da falta de cavalheirismo dos homens sentados. Às vezes o nosso amigo queria dar lugar para uma senhora, mas não sabia como fazê-lo, não tinha iniciativa. Ficava pensando no que falar e quando via já era seu ponto e tinha que levantar de qualquer jeito. A morena desceu com uma mancha na calça jeans, o tarado tinha um sorriso de satisfação na cara. Bastardo! No metrô um velho segurava a Bíblia sagrada e disparava a palavra de Deus como se fosse receita de bolo ou aula de ginástica em academia. A gente não devia ficar velho, era cruel demais. Deviam matar a gente antes... Tinha um negro lá no fundo. Com cara de suspeito. Nosso amigo passou a carteira pro bolso da frente e segurou firme. Era um cirurgião dentista prevenido.

Enfim em casa. Cheiro de comida fresca e perfume barato da mulher. A menina brincava em frente a TV. Beijou a mulher. Comeu, tomou banho, mandou a menina ir pra cama. Assistiu o telejornal. Pensou na vida. E pensou que a morte já não era tão má, àquela altura do campeonato. A mulher disse que ia deitar. Gelou. Queria estar em Porto Alegre. Passou a mão no seu peito e perguntou se ele não ia com ela. Falou daquele jeito que só a “nossa mulher” sabe falar. Talvez ela não tivesse um amante. Ouviu um “naipe de metais” alto. Devia ser o Count Basie tocando pra ele. Ligou a vitrola, colocou um vinil do Nat King Cole. Fazia tempo que não dançavam. Apertou ela forte no peito. Ela riu, estava feliz. Bonita. Nem parecia que tinha quarenta e cinco. Como era linda! E tinha cheiro de felicidade. Foram pra cama, com vinte anos a menos de idade. Apagaram a luz, escovaram os dentes. Fizeram todas as preliminares, sem sacanagem. Só com amor.

Broxou. Como sempre.

Ela disse que não tinha problema. Quando nosso amigo fechou os olhos, ela começou a se tocar. Tinha um amante, com certeza. Ele queria estar em Porto Alegre.
Hoje tinha provado aquela xota cheia de sangue de menstruação. Um dia iria matar de verdade. Até lá tinha que reconquistar sua mulher. Tocava jazz na sua cabeça. Uma big band liderada por Humphrey Bogart. Estava sonhando? “Casablanca”. Fitava sua mulher e dizia: “Estou de olho em você garota”. Sublime. Como diziam os Ramones: “Hoje seu amor, amanhã o mundo”.

20/02/05, ouvindo Count Basie.